O Jung não é a melhor referência em matéria de filosofia oriental. Vê-se logo de cara, numa primeira lida de obras traduzidas do chinês por pessoas que realmente tiveram contato com a sabedoria chinesa, que Jung não sabia do que estava falando propondo um reducionismo fraco e mal acabado. A tradução de que você fala é do Richard Wilhelm que era amigo próximo de Jung e muito de sua tradução, tanto do “I-Ching” como do “O Segredo da flor de ouro”, foram maculadas pela influência deste último. O I-Ching traduzido por Wilhelm contém uma linguagem truncada, e permeada de noções e conceitos junguianos e do próprio Wilhelm. Tenho utilizado a tradução do mestre taoísta Alfred Huang, que é chinês, procurou traduzir o I-Ching de acordo com o chinês original.
Só para dar um exemplo:
Wilhelm traduz Qian (o primeiro hexagrama, Céu) por “O Criativo” e no Julgamento diz o seguinte: “O criativo promove sublime sucesso, favorecendo através da perseverança.
Huang traduz por “Iniciar” e na Decisão diz: “Iniciar. Sublime Iniciador. Prospero e tranqüilo. Favorável e benéfico. Perseverante e reto.
Por aqui, percebemos que ser o criativo não é criar, e esse hexagrama na realidade não é só um princípio abstrato, mas uma atitude. Além disso, não é o sucesso que é sublime, sublime é o iniciador, nem tampouco prosperidade significa sucesso e onde foi parar a tranqüilidade? A perseverança também deve ser reta, o que Wilhelm já na sua explicação fala em “perseverança no bem”. Os chineses não têm a noção de bem como entendemos, deve-se lembrar que para eles tudo é um jogo entre yin e yang sem prevalecimento de nenhum deles. Sem falar que Wilhelm compreende que há um julgamento sobre o hexagrama, entretanto, ele expressa uma decisão.
Além disso, Wilhelm deixou de fora em sua tradução todos os comentários sobre a decisão de Confúcio, o que é uma perda muito grande para quem estuda o I-Ching sem contar que é uma depredação do clássico das mutações. E, como se não bastasse, traduz por “Imagem” o que seria “Símbolo”, influência nitidamente junguiana.
Para quem quer estudar o I-Ching, eu recomendo uma tradução melhor. A tradução do Mestre Alfred Huag até agora é a melhor que encontrei. Mas, mesmo sendo ocidentalizada, a tradução de Wilhelm tem valor, pois foi o primeiro a fazê-lo e não é de todo incorreto, portanto pode ser utilizada.
Recomendo também, não jogar sempre e para qualquer coisa, mas quando se tem uma real questão. Quando jogar, procurar aplicar as orientações e observar como se sai no processo, aprendendo com sua própria experiência a compreender realmente para qual ponto o I-Ching estava apontando, pois muitas vezes acontece de sermos tentados a ver aquilo que queremos ver. Apesar de ser possível, não oriento a questionar sobre o futuro, embora ele possa aparecer vez por outra na resposta. Lê-lo várias vezes também auxilia a revelar o processo da transformação do Tao. Observar na própria vida as mudanças de polaridade entre yin e yang, quando ela acontece, e aproveitá-la para agir, considerando que recuar e ficar parado também é um agir.

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