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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Kun e Li - Hexagramas dos Solstícios


Visto que estamos bem nessa época, Kan (Escuridão) está relacionado com o solstício de inverno. Li(Brilho) está relacionado com o solstício de verão.
Kan é um dos oito hexagramas formado pela repetição de um trigrama, neste caso Kan é Água sobre Água. O ideograma original lembra um poço com uma pessoa apoiada em um pé e erguendo o outro, dando a entender que está caindo. Kan tem portanto um significado duplo: ou poço, ou cair. Ou seja, o tema central é: cair, mas sem se afogar; em perigo, mas não perdido. Por não haver luz em um poço, pode ter o significado de cair na escuridão. Para os chineses, água sempre representava perigo, como atravessar um rio. Neste hexagrama a água é duplicada representando uma situação repleta de dificuldades. Porém os chineses acreditavam que se a pessoa fosse capaz de seguir o caminho do Céu poderia passar pela situação com segurança como a água que passa por uma grota. Por isso a Decisão diz "Dupla escuridão. Seja sincero e verdadeiro. Confie no coração e na mente. Próspero e tranqüilo; as ações serão honradas." Em todas as linhas do texto dos Yao (organizadas pelo Duque de Zhou, filho do Rei Wen) recomenda-se autocontrole, autoconfiança, autoconhecimento e autopreservação, indicando que o momento é de introspecção. Pequenas ações podem ser benéficas, mas somente se estiver em posição central.
Li é o oposto de Kan e está associado ao fogo, ao Sol e à energia mais yang, por isso seu nome é Brilho, mas não é o sentido literal. Nos tempos antigos Li significava prender, juntar a. Portanto, os atributos de Li são a adesão e o brilho. Li simboliza a inteligência e a sabedoria. Quando as linhas maleáveis e sólidas de Kun (escuridão) chegam a seu ápice e se transformam, se obtêm o hexagrama Li, fogo sobre fogo, por isso, a seqüência do hexagrama diz "depois de Escuridão vem a adesão uns aos outros e ao Brilho”. Quando se está imerso em problemas não solucionados é como se caísse na escuridão. Quando se encontra a solução pode-se comparar à luz que põe fim à escuridão.
A Decisão diz: “Brilho. É favorável ser perseverante e reto. Próspero e tranqüilo. Criar uma vaca: Boa fortuna." 'Criar uma vaca' significa que as linhas maleáveis devem se prender as posições centrais, os que são dóceis como vacas se submetem trazendo boa fortuna. 
O texto dos Yao sinaliza que é hora de fazer contatos, unir-se as pessoas que fortaleçam o brilho. O texto orienta que se deve lidar com a origem dos problemas e não com problemas secundários, mas alerta cautela. Se o calor e o brilho é muito intenso, logo se extinguirá.
Enquanto Qian (Céu) e Kun (Terra) representam o puro Yang e o puro Yin, Li (Sol) e Kun (Lua) representam respectivamente yin dentro de yang e yang dentro de yin. Esses quatro hexagramas são os mais importantes do I-Ching, assim, Qian e Kun estão no início e Kan e Li no final do Cânone Superior.

terça-feira, 21 de junho de 2011

O que você recomenda para aprender I Ching? Tenho aquele livro prefaciado pelo Jung, é muito ruim?

O Jung não é a melhor referência em matéria de filosofia oriental. Vê-se logo de cara, numa primeira lida de obras traduzidas do chinês por pessoas que realmente tiveram contato com a sabedoria chinesa, que Jung não sabia do que estava falando propondo um reducionismo fraco e mal acabado. A tradução de que você fala é do Richard Wilhelm que era amigo próximo de Jung e muito de sua tradução, tanto do “I-Ching” como do “O Segredo da flor de ouro”, foram maculadas pela influência deste último. O I-Ching traduzido por Wilhelm contém uma linguagem truncada, e permeada de noções e conceitos junguianos e do próprio Wilhelm. Tenho utilizado a tradução do mestre taoísta Alfred Huang, que é chinês, procurou traduzir o I-Ching de acordo com o chinês original.
Só para dar um exemplo:
Wilhelm traduz Qian (o primeiro hexagrama, Céu) por “O Criativo” e no Julgamento diz o seguinte: “O criativo promove sublime sucesso, favorecendo através da perseverança.
Huang traduz por “Iniciar” e na Decisão diz: “Iniciar. Sublime Iniciador. Prospero e tranqüilo. Favorável e benéfico. Perseverante e reto.
Por aqui, percebemos que ser o criativo não é criar, e esse hexagrama na realidade não é só um princípio abstrato, mas uma atitude. Além disso, não é o sucesso que é sublime, sublime é o iniciador, nem tampouco prosperidade significa sucesso e onde foi parar a tranqüilidade? A perseverança também deve ser reta, o que Wilhelm já na sua explicação fala em “perseverança no bem”. Os chineses não têm a noção de bem como entendemos, deve-se lembrar que para eles tudo é um jogo entre yin e yang sem prevalecimento de nenhum deles. Sem falar que Wilhelm compreende que há um julgamento sobre o hexagrama, entretanto, ele expressa uma decisão.
Além disso, Wilhelm deixou de fora em sua tradução todos os comentários sobre a decisão de Confúcio, o que é uma perda muito grande para quem estuda o I-Ching sem contar que é uma depredação do clássico das mutações.  E, como se não bastasse, traduz por “Imagem” o que seria “Símbolo”, influência nitidamente junguiana.
Para quem quer estudar o I-Ching, eu recomendo uma tradução melhor. A tradução do Mestre Alfred Huag até agora é a melhor que encontrei. Mas, mesmo sendo ocidentalizada, a tradução de Wilhelm tem valor, pois foi o primeiro a fazê-lo e não é de todo incorreto, portanto pode ser utilizada.
Recomendo também, não jogar sempre e para qualquer coisa, mas quando se tem uma real questão. Quando jogar, procurar aplicar as orientações e observar como se sai no processo, aprendendo com sua própria experiência a compreender realmente para qual ponto o I-Ching estava apontando, pois muitas vezes acontece de sermos tentados a ver aquilo que queremos ver. Apesar de ser possível, não oriento a questionar sobre o futuro, embora ele possa aparecer vez por outra na resposta. Lê-lo várias vezes também auxilia a revelar o processo da transformação do Tao. Observar na própria vida as mudanças de polaridade entre yin e yang, quando ela acontece, e aproveitá-la para agir, considerando que recuar e ficar parado também é um agir.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Porque o trigrama é uma figura da imanência?


Me repetirei um pouco, só no princípio, para esclarecer esta questão que me foi proposta, agradeço a compreensão de quem vem lendo meu blog
Quando Fu Xi, soberano e sábio chinês que viveu a mais ou menos 4.000 anos (2005-1766 a.C) organizou os trigramas, deu origem as formas embrionárias do que viria a ser os caracteres chineses escritos.
Toda a civilização chinesa foi construída a partir de duas notações, dois traços, inteiro “ _____”  e partido “__   __” e é pela combinação destes traços que se compões os 8 guá fundamentais, ou os trigramas. Os traços plenos e partidos não constituem em si mesmos uma linguagem, nem transmitem um pensamento nem querer, pode-se dizer que é pré-simbólico. Por isso, não há uma formula única que nos leve de seu início até seu fim, é tão somente um jogo, um dispositivo de manipulação, sempre aberto e criativo.
Diferentemente dos ideogramas que surgiram posteriormente, os trigramas e hexagramas não expressam um sentido, mas definem uma matriz. É aqui que está o segredo, a oposição entre a palavra e o traço. Se desdobrarmos esse conceito chegaremos a uma outra oposição de confronto entre mito e diagrama.
Obviamente, essa oposição pode ser contestada, mas pode servir de baliza para compreende a imanência do I-Ching, então por hora deixemos assim.
Tanto o mito como o diagrama visam a revelar algo que está além da linguagem abstrata ou que ela não revela tão bem, os dois também recorrem a figuras imagéticas e, além disso, organizam-se em seqüência lógica para este fim. Porém, a primeira vista, as paridades acabam por aí. O mito coloca em cena um drama, na forma de história enquanto o I-Ching representa uma evolução por transformação. O mito utiliza atores enquanto o I-Ching intervém com fatores constitutivos (yin e yang, traço pleno e partido). Na medida em que o mito é explicativo e nos remete a uma causa primeira, o I-Ching nos dá um indicativo de tendência. Enquanto o Mito é inventivo e dá função à ficção, o I-Ching é detectivo expressando o sentido de sua função primeira, a adivinhação.
Por todos estes fatores podemos dizer que o Mito está mais ligado a revelação da transcendência e o I-Ching com a percepção da imanência.

As quatro virtudes do Céu

O antigo ideograma chinês que leva o nome Qian (Céu) é a imagem do Sol ascendente irradiando luz e energia - Chi- nutrindo o mundo todo. No lado esquerdo do ideograma está representado o desenho propriamente do Sol, acima dele há um broto com duas folhas emergindo enquanto abaixo do Sol está representada a raiz desta planta que se fixa profundamente no solo. À direita, o Chi emana do Sol e se irradia sob o Céu. Cada uma dos quatro caracteres que formam o ideograma (Yuan, Heng, Li e Zhen) representa um dos quatro atributos do Céu e simbolizam as virtudes de um imperador. Porém, estas quatro virtudes tiveram algumas modificações desde o tempo do Rei Wen, no início da dinastia Zhou (1122-221 a.C), que foi o primeiro comentador e que organizou os 64 hexagramas nesta seqüência que se conhece hoje.
A primeira grande virtude é Yuan, que significa Sublime e Iniciador, porém a princípio denotava Origem. Sempre que um homem busca a adivinhação deve honrar sua origem, preparando-se para ela. Também abrange o significado de brotar.
A segunda grande virtude é Heng, que tem os atributos de Próspero e Tranqüilo, mas no início Heng expressava as Oferendas Sacrificiais. Aquele que busca a adivinhação deve honrar seus antepassados, harmonizando-se com o Céu e a Terra apresentando-se com sinceridade e reverência. Ainda significa crescer.
A terceira grande virtude é Li, Favorável e Benéfico, entretanto representava a colheita dos grãos com uma faca. É favorável e Benéfica a época da colheita. Quando o homem busca sua origem e harmoniza-se com o Céu e a Terra, pode colher os frutos da adivinhação. Também pode significa florescer.
A quarta grande virtude é Zhen, Perseverante e Reto, mas significava propriamente a adivinhação, e é preciso ser perseverante e reto para, através da adivinhação, orientar suas ações de maneira favorável e evitar a má conduta que atrai o infortúnio. Ainda é atribuído ao Zhen o significado de frutificar.

História do Rei Wen – Contada por Alfred Huang, mestre taoísta
O pai do Rei Wen, Ji Li, era um nobre da dinastia Shang. Recebeu o título de Senhor do Oeste e governava o território ocidental do império Shang. Ji Li manifestou o Tao do Céu; pessoas de toda a vizinhança o procuravam. O imperador de Shang sentiu-se ameaçado e matou Ji Li. Durante 50 anos, com grande humildade e discrição o Rei Wen deu continuidade ao governo magnânimo de seu pai. Também não conseguiu evitar a suspeita e a inveja do tirano de Shang e acabou preso. Nos sete anos que passou na prisão o Rei Wen trabalhou com o I (mutação) e ponderou sobre seus futuros deveres. Percebeu quatro etapas: Yuan, Heng, Li, Zhen; ou seja, brotar, crescer, florescer e frutificar. Visualizou que sua iniciativa sublime (Yuan) seria próspera e tranqüila (heng), favorável e vitoriosa ao povo (Li) e deveria manter-se perseverante e reto (zhen). Naquela época ele já concebera um plano para salvar o povo da brutalidade do tirando de Shang. Estava profundamente ligado ao Tao do Céu e a lei do desenvolvimento natural. Reorganizou os 64 hexagramas e colocou Qian no início, para servir de diretriz geral para o Cânone Superior e de estrela-guia para seu curso revolucionário.

sábado, 18 de junho de 2011

Estudos sobre o princípio do I-Ching - Parte 1


Toda a civilização chinesa, sua cultura e linguagem, tem como base o traço pleno "_____" e o traço partido "__  __", o yang e o yin.  Entretanto a inscrição do traço é ainda pré-simbólico e portanto não se constitui numa linguagem. O I-Ching não foi escrito em nenhuma língua e não se pode dizer que possui uma língua própria. Em princípio, o I-Ching não tem por objetivo transcrever nada, nem pensamento nem querer, é apenas um jogo de figuras. É de suas oposições e correlações, suas possibilidades de transformação, que nasce o sentido. 
Por isso, a leitura do Livro das Mutações não tem uma trama fechada, que possa levar-nos de seu princípio a seu fim. A leitura deve ser feita simplesmente como um "modo a seguir", como um dispositivo a manipular, sempre de improviso. Este é precisamente o Tao do I (ou, a verdade da mutação): Tudo está em constante mudança e quando as situações ultrapassam seu extremo, alternam naturalmente para seu oposto.
O Tao do I diz: "em uma situação e ocasião favoráveis, nunca despreze o potencial desfavorável. Em uma situação e ocasião desfavoráveis nunca aja brusca e cegamente. E, em circunstâncias adversas, nunca fique deprimido nem se desespere".