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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Existem pressupostos hermenêuticos importantes antes de ir até o texto? Existem pressupostos modernos (religiosos ou sociais) que geralmente distorcem o sentido do texto do I-Ching?

Qualquer livro sagrado, seja de qual cultura for, tem uma hermenêutica específica para a compreensão do mesmo. O I-Ching compreende além disso mais um passo, pois em verdade não há nada escrito. O Livro das Mutações em sua essência é somente as figuras dos Hexagramas. Depois que Fu Xi organizou os trigramas fundamentais, somente o Rei Wen há apenas cinco mil anos atrás escreveu algo sobre, posteriormente seu filho, o Duque de Zou, e por fim Confúcio. Ou seja, o que estes comentadores do I-Ching fizeram já foi baseado numa hermenêutica.
Entretanto, de que tipo de hermenêutica estamos falando? Apesar do I-Ching ser uma seqüência de 64 símbolos não é exatamente neles que o olhar deve se fixar, mas sim no intervalo entre um e outro hexagrama, pois é a mutação que realmente importa, a possibilidade que se abre com a fluidez da transformação incessante de todas as coisas debaixo do Céu e acima da Terra.
Esta forma de observar o intervalo pode, com muita facilidade, confundir a mente ocidentalizada quando esta vive de conceitos fechados em si mesmos. Para uma leitura aprofundada do I-Ching é exigido este olhar em mutação. Portanto, o princípio original que pressupõe uma leitura oracular é algo próximo da intuição.
 Alfred Huang na sua explicação sobre os métodos de adivinhação diz: "Antes de entender todas as informações técnicas, pode-se desenvolver a intuição para obter conhecimentos extraordinários através da adivinhação. Um dos melhores caminhos para isso é a meditação". Por isso não há pressupostos hermenêuticos exatos para a compreensão do I-Ching, essa compreensão deve nascer a cada momento que meditamos sobre um hexagrama.
Hoje já temos esses comentários dos Quatro Venerados Sábios para auxiliar na compreensão, é por isso que utilizo e indico a tradução do Mestre Taoísta Alfred Huang, que é a única em português que os contém e além disso, do meu ponto de vista,  ele consegue de uma maneira oriental colocar em conceitos ocidentais, pelo menos aproximadamente.
Os Escritos Sagrados do I-Ching são compostos pela Decisão escrita pelo Rei Wen (sua interpretação sobre o significado do hexagrama), pelo Comentário sobre a Decisão escrito por Confúcio ( que é uma elaboração para a Decisão do Rei Wen), pelo Comentário sobre o Símbolo ( que é a interpretação de Confúcio para o significado da justaposição dos trigramas inferior e superior) e pelo Texto dos Yao (que é a interpretação do Duque de Zhou para cada uma das seis linhas). Nestes escritos existem muitos símbolos, geralmente voltados a fatores da natureza ou da vida em comunidade. Sobre estes símbolos, e levando em conta a mutação como fator primordial, podemos aplicar uma hermenêutica.
Para dar um exemplo claro de todo o procedimento, desde a leitura oracular até a questão hermenêutica, fiz da seguinte forma: Perguntei "Como irei explicar as possíveis leituras dos símbolos do I-Ching?". Neste caso, não utilizei nenhuma forma clássica de consulta, nem as varetas de caule de milefólio nem as moedas, simplesmente abri o livro coincidentemente no Hexagrama 8 - Bi (União). Digo coincidentemente pois, diferente da palavra acaso, coincidência se refere à duas ou mais coisas incidindo no mesmo tempo. A estrutura deste hexagrama é Água sobre Terra.
O hexagrama precedente é Multidão, portanto diz-se: "Em uma multidão, é preciso haver um vínculo de união. Assim, depois de Multidão vem a União". Ora, se considerarmos a "multidão" como a  infinda multiplicidade daquilo que se pode compreender de um determinado símbolo é necessário que neste caso da análise dos símbolos tenhamos algum tipo de unidade hermenêutica e é por isso que o hexagrama União pode ter nossa resposta. Vejamos!
A Decisão deste hexagrama diz: 'Buscando a união. Boa fortuna. Examine a adivinhação: Sublimemente perseverante, persistente e reto. Nenhuma culpa. Facções agitadas a caminho. Atrasar-se: infortúnio.
Primeiramente parece que essa busca de união das possíveis leituras dos símbolos nos trará boa fortuna, deixo ao encargo dos senhores a verificação dessa boa fortuna ao termino da análise.
Outro princípio aqui exposto é o "Exame da adivinhação".  Pois, não é exatamente a isso que estamos nos propondo? Posso lembrar que já falamos da intuição, mas aqui o I-Ching nos recomenda o exame detido dos símbolos para que nossa intuição seja clara.
O "sublimemente perseverante, persistente e reto, nenhuma culpa" refere-se a quinta linha, a linha do Rei. Conta-se que o Rei Wen quando buscou união com os clãs minoritários, recebia bem os que estavam dispostos a se unir e deixava ir aqueles que não queriam juntar-se a ele. Essa é a maneira de observar a mutação na leitura dos símbolos, não deve-se apegar nem rejeitar as intuições que nascem da leitura, sejam elas de boa fortuna ou infortúnio. Que culpa haveria nisso?
Aqui, utiliza-se também "facções agitadas a caminho". De acordo com sua pergunta, analise o que são as facções agitadas fora de si, dentro de si mesmo e na relação ( se sua pergunta compreender uma relação). Isso dará um parâmetro possível de significado em três níveis. Considerando que estamos falando de União e que o trigrama superior é Água, podemos supor que as facções simbolizem a mente e as emoções. Mas aqui, como a pergunta foi sobre as possibilidades das leituras dos símbolos do I-Ching me parece mais correto interpretar as facções agitadas como sendo os pressupostos da religião e/ou da cultura dominante (fora de si) e os pressupostos hermenêuticos que nós mesmos temos sobre qualquer símbolo que nos é apresentado (dentro de si) que podem atrapalhar uma interpretação correta. 
"Atrasar-se: Infortúnio" refere-se a sexta linha, está no topo do hexagrama e ultrapassou a linha do Rei, o que representa uma atitude adversa. A pessoa nesta posição recusa-se a buscar união com a pessoa influente que está na posição do rei que é sublimemente perseverante, persistente e reto. Isso pode significar que, no estudo do I-Ching, deve-se ter persistência e retidão por meio de uma sublime perseverança na compreensão do Tao do I (A Verdade da Mutação). O "atrasar-se" aqui representa tanto alguém sem paciência para a dedicação quanto aquele que abandona a busca.

A análise poderia continuar pois não passei do início do texto, mas acho que podemos compreender, pelo menos vislumbrar, uma orientação oracular para a própria forma de interpretar o I-Ching. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Análise Básica dos Hexagramas solsticiais e equinociais

Como já falei bastante de Kan e Li, não me estenderei na análise.

Hexagrama 29 - Inverno: Kan – Escuridão – A água flui duas vezes. Representa o oeste. O Símbolo é Água sobre Água: escuridão. De acordo com a seqüencia de Fu Xi dos oito trigramas Kan representa a Lua, que por si não tem luz nem calor, refletindo o sol, por isso representa o yang dentro do yin.

Hexagrama 30 - Verão: Li – Brilho – Brilho duplicado. Representa o leste. O Símbolo é Fogo sobre Fogo: Brilho. Ao contrário de Kan, Li representa o Sol que é a fonte de luz e calor e portanto é o yin dentro do yang, o sol nascente.

Hexagrama 51 - Primavera: Zhen – Agir – Trovão é duplo. É o despertar dos insetos que ocorre no mês de março, durante este período os trovões ribombam. O trovão proclama a chegada da primavera. Todos os animais e insetos hibernando despertam e brotos minúsculos eclodem. “Seqüência do hexagrama: Para cuidar de um vaso para sacrifícios, ninguém é mais adequado que o filho mais velho. Assim depois de Instituir o Novo vem Agir”


Hexagrama 58 - Outono: Dui – Alegre – Lagos unidos um ao outro. Dui deveria ser traduzido como charco ou pântano. O arroz é a base da sustentação da vida para os chineses e ele é cultivado nos charcos. A época do plantio do arroz é no equinócio de outono. Uma linha maleável montada sobre duas firmes forma Lago. A linha maleável representa a personalidade alegre e dócil enquanto as duas firmes simbolizam a força e o princípio interior. 

Hexagramas dos meses equinociais e solsticiais

              Depois de questionarem as informações do tópico anterior sobre os hexagramas dos soltícios decidi fazer uma série de textos tentando explicar cada um dos hexagramas que se encaixam nos meses, tanto dos equinócios quanto dos soltícios para verificar a confiabilidade destas mesmas informações.
              De acordo com o Mestre Taoísta Alfred Huang, todos os 64 hexagramas correspondem aos meses do calendário lunar chinês, entretanto os meses de março, junho, setembro e dezembro (os meses dos equinócios e solstícios) são correlatos a 6 hexagramas enquanto os outros oito meses tem apenas 5 hexagramas com os quais pode-se formar analogia.
              Entretanto, de acordo com meus estudos sobre o I-Ching e suas relações com os meses do calendário lunar chinês, me parece que haveria outras possibilidades de compreensão. Huang não situa alguns hexagramas correspondendo com os meses solsticiais que muito bem poderiam estar ali localizados, como por exemplo, Quian (Céu) e Kun (Terra) que poderiam ser, respectivamente, correspondentes do solstício de verão e de inverno. Outra coisa que me chama a atenção na leitura de Huang é que os meses de Março e Junho têm apenas dois hexagramas correspondentes no Cânone Superior e quatro no Cânone Inferior, enquanto os meses de Setembro e Dezembro têm três hexagramas tanto no Cânone Superior como no Inferior.
              Por que Huang faz isso? É justamente a isso que estou me propondo, mas desde já advirto: estou partindo do pressuposto que as explicações e delimitações dos meses apontadas por Huang estão corretas e caso isso venha a se configurar um erro, minha teoria cairá, inevitavelmente, por terra.

              Utilizarei os nomes dados a incidência da luz solar no Planeta Terra de acordo o hemisfério norte, ou seja, os Equinócios de Primavera e Outono acontecendo em Março e Setembro, respectivamente; e os Solstícios de Verão e Inverno ocorrendo em Junho e Dezembro, respectivamente. Para facilitar a compreensão falarei nos meses do calendário solar, apesar da referência chinesa ser no calendário lunar.